Os avanços no diagnóstico, tratamento e prevenção do HIV nos últimos anos transformaram completamente o cenário médico-científico. O que antes era considerado uma doença grave e de alta mortalidade hoje é reconhecido como uma condição crônica, controlável e compatível com uma vida longa e saudável. Em 2024 e 2025, a ciência deu passos decisivos, com novas terapias, estratégias de prevenção altamente eficazes e resultados expressivos em saúde pública, especialmente no Brasil.
Um dos maiores destaques recentes é o desenvolvimento das terapias injetáveis de longa duração, tanto para prevenção quanto para tratamento. O lenacapavir (Yeztugo®), considerado o “Avanço Científico do Ano” pela revista Science, permite aplicações semestrais e demonstrou altíssima eficácia na prevenção da infecção pelo HIV-1. Essas inovações reduzem a necessidade de comprimidos diários, melhoram a adesão ao tratamento e ajudam a enfrentar barreiras como o esquecimento e o estigma associado ao uso contínuo de medicamentos.
Além da prevenção, o tratamento do HIV também evoluiu de forma significativa. Regimes modernos utilizam comprimido único diário ou medicamentos injetáveis, com menor toxicidade e melhor perfil de segurança. Inibidores permitem o controle eficaz do vírus, mantendo a carga viral indetectável. Isso reforça um conceito já bem estabelecido pela ciência: Indetectável = Intransmissível, ou seja, pessoas em tratamento adequado não transmitem o HIV por via sexual.
Esses avanços contribuíram para a drástica redução da transmissão horizontal, especialmente nas relações sexuais, por meio da combinação de tratamento eficaz e diagnóstico precoce. Embora a transmissão horizontal não tenha sido erradicada, ela é hoje amplamente prevenível quando as estratégias corretas são aplicadas, representando uma mudança profunda na dinâmica da epidemia e no controle da infecção.
Mesmo com todos essas boas novas, é fundamental reforçar que os cuidados adotados desde o início da epidemia continuam sendo importantes, especialmente nas relações sexuais. O uso do preservativo segue como uma das formas mais eficazes de prevenção não apenas do HIV, mas também de outras infecções sexualmente transmissíveis. A combinação entre métodos tradicionais de proteção, testagem regular e as novas estratégias de prevenção representa hoje a forma mais segura e responsável de cuidado com a saúde individual e coletiva.
Outro marco histórico foi alcançado pelo Brasil em dezembro de 2025: o país recebeu certificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública. Isso significa que, com diagnóstico no pré-natal, tratamento adequado e acompanhamento correto, o risco de transmissão da mãe para o bebê tornou-se virtualmente nulo. Os indicadores nacionais ficaram abaixo dos limites internacionais, consolidando o Brasil como referência mundial nessa área.
Somados, esses avanços representam não apenas progresso científico, mas também um impacto direto na qualidade de vida das pessoas que convivem com HIV. A expectativa de vida hoje se aproxima da população geral, o estigma vem sendo combatido com informação e ciência, enquanto o foco da atenção em saúde se amplia para o envelhecimento saudável. O HIV segue sendo um tema de vigilância e cuidado contínuo, mas chega, sem dúvida, a uma nova era marcada por conhecimento, prevenção e esperança.
Dr. Marcelo Francisco Fogaça
Especialista em análises clínicas, formado pela Universidade Santo Amaro. Participou do corpo técnico do Delboni Auriemo, considerado como o maior laboratório da América Latina.

